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Notas sobre resistência e a vontade de comer

O instigante e belo livro Kafka-Foucault: sem medos (2004), organizado por Edson Passetti traz um leque de textos que fazem intercessões muito bacanas entre os trabalhos de Franz Kafka e Michel Foucault. Entre eles e buscando pensar um pouco o intolerável presente, destaquei o escrito por Peter Pál Pelbart, que tem por título O corpo, a vida, a morte.

Vale a leitura desse texto, até porque não farei aqui uma resenha do mesmo. Antes busco um encontro com Kafka, Foucault, Pelbart e outros autores que suas linhas trazem, para não me deixar tragar pelas impotências que o contemporâneo tem viabilizado. Há muito de limite e de intolerância nos comportamentos e atitudes das pessoas pelo Brasil do presente, como no mundo afora.

O cada vez mais pop e franciscano Papa, dia sim e outro também, rasga o verbo da conveniência e clama pela tolerância e acolhimento com as diferenças. Isso é muito bacana, mas também me parece pouco e um tanto distante, pois quase sempre o debate do Papa acontece nas manchetes de jornais. E a notícia, produto de um jornalismo de mercado, é a cada vez muito mais manchete que reportagem. Tentativas de abafar a história pela condensação de um sentido que se quer dar. Na publicidade isso funciona, mas na vida são outros quinhentos.

Retornando a questão da resistência e da vontade de comer, abre o texto de Pelbart a ideia de Giogio Agamben de que a literatura e o pensamento são experimentos sem verdade, em contraponto ao que se espera da verdade científica. De algum modo ele faz contrapor a experiência da verdade com a da liberdade. A verdade se faz peso e trabalha na fabricação de corpos disciplinados, corpos capazes e projetados para uma vida milimetricamente organizada e previsível.

Historicamente, Foucault pontua que a produção desses corpos ganhou escala no século XIX, naquilo que ele toma por Regime Disciplinar, onde se buscava a docilização dos corpos para adequá-los aos modos de funcionamento das instituições que ganhavam estatuto de verdade, através das disposições da ciência e do incremento da lógica liberal na vida.

Terríveis regimes disciplinares que se encontram nas escolas, nos hospitais, nas casernas, nas oficinas, nas cidades, nos edifícios, nas famílias (…) grita Foucault, que vê essa lógica ganhar força nos processos de culpabilização e patologização do sofrimento, insensibilização e negação do corpo (1).

Décadas de disciplinas normatizando os modos de vida, como um moto contínuo que desconsidera a diferença e eis que na segunda metade do século XX, já se fazia aparecer com facilidade a falência dos corpos disciplinados. Eles já não conseguiam dar conta de seus afazeres, fracassavam em seus planejamentos, ou de outro modo como aponta David Lapoujade, eram os corpos que não aguentavam mais.

Entretanto, a literatura de Kafka, essa experiência sem verdade, já se fazia rachadura no verniz do regime disciplinar, ainda quando seus saberes e instituições se faziam locomotiva do que se queria como o melhor da vida, através do exercício da ambição e do aprimoramento técnico.

Franz Kafka

Em Um Artista da Fome, publicado em 1922, Kafka conta a história de um jejuador que conseguia atrair durante um tempo, uma grande audiência para seus espetáculos, onde passava dias e dias sem nada comer. As cidades viviam seus jejuns, torciam para que ele perdesse, mas ele, indiferente a platéia, permanecia sem comer o tempo que fosse necessário.

Novas atrações foram se juntando ao circo do Jejuador e ele perdeu espaço, a ponto de ser esquecido numa jaula, até que um funcionário da limpeza o encontra, em pele e osso, como se costuma dizer. Antes de morrer por inanição, o jejuador balbucia o que de algum modo lhe movia a não ter vontade de comer: “Por que eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo” (1),

Em 1922, menos de um século atrás, já se comia até com os olhos o estranho sabor das vitrines, dos artefatos de guerra, das imagens do cinema, dos monumentos modernos como a Torre Eiffel. Nesse mundo, as últimas palavras do jejuador de Kafka soam como um soco no estômago: ausência de som, seja do soco, seja do grito. É como se se interrompesse o tempo moderno, obrigando-o a se reformar para seguir adiante.

Em Kafka e sem medos, essa é a resistência possível para tempos onde se busca afogar a expressão singular do viver. O não comer do jejuador ativava um outro modo de vida, distinto das modas, avesso aos julgamentos. Uma vida que não se deixava reduzir a uma forma, à verdade da hora.

Não havia finalidade no jejum, havia a afirmação da vontade de poder sobre a medíocre vontade de comer. Havia ainda um clamor nos experimentos do jejuador, que em silêncio perseverava com a força que a insuficiência possui. É ela a condição de encontro com o que está fora, a insuficiência é o que dá passagem para outras relações com os vivos e a vida. A insuficiência é a realização da vontade enquanto potência. O suficiente se basta!

Fechando por aqui, mais algumas linhas ainda para apresentar um pouco do pensamento de Barbara Stiegler, quando tematizou Nietzsche e a Biologia:

(…) todo sofrer deve chamar um agir, mas um agir que não impeça o sofrer; as patologias do vivente reclamam uma medicina que respeite as patologias como uma condição de vida (1).

A vida entre o uso do bloqueador solar e a corrida por um lugar ao sol

 

(1) Perbart, Peter Pál. O corpo, a vida, a morte (in) Passetti, E. (org). Kafka-Foucault: sem medos. Cotia, SP. Atelier Editorial, 2004.