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Um estudo, um convite

os imprecisos traços das proveniências desenham para fora das páginas que se lê.

Faz tempo que encontrei Foucault e seu Nietzsche, a genealogia e a história, publicado no Microfísica do poder, organizado por Roberto Machado. Texto difícil, muito difícil e nas primeiras tentativas de estudo, não conseguia chegar ao final. O tempo passou e consegui enfrentar o texto e produzir usos com ele, ainda como estudante de Psicologia.

Como professor e diante da vontade de fazer propagar estudos com a presença do Foucault, coordenei algumas leituras e conversas com esse texto. Nessa última, pedi a dois participantes que escrevessem uma espécie de fichamento/resenha, para disponibilizar aqui na Oficina-Foucault. Uma tentativa de fazer o estudo ecoar.

Assim fica aqui um convite para conversar com Sara, Jhonan e a escrita que produziram com Foucault e o seu Nietzsche, a genealogia e a história.

A genealogia como modo de historiar em Nietzsche, para Foucault

Jhonan Luiz Andrade dos Santos*
Sara Reis Teixeira*

Na tentativa de apontar o que mais chamou atenção ao longo da leitura e discussão do texto Nietzsche, a Genealogia, a História de Michel Foucault, escrevemos esse texto em consonância com os encontros do Coletivo Foucault Vivo, buscando junto ao professor Kleber dúvidas que tivemos ao elaborar nossos apontamentos. Por ser um texto extenso e dificulto, não temos a pretensão de compreendê-lo em sua totalidade.
Assim, dividimos em tópicos como o próprio Foucault expõe no texto, mas com momentos de mistura e ruptura. A eles, então!

Tópico Um

As pessoas empregam um significado às palavras que utilizam e transmitem esse significado para quem compartilha da mesma linguagem, em especial, para aqueles cujo aprendizado nessa língua ainda está tomando forma. Criamos significados em comum para coisas animadas e inanimadas que nos rodeiam ou ouvimos falar, mas podemos perverter tais significações comuns, extrapolando-as e quebrando suas formas, pelo visto, o que Foucault atenta nos seus usos dos termos história e genealogia.

Isso porque história e genealogia são incorporados com um significado popular específico: a genealogia entendida como um sistema de organização das origens biológicas e a história como uma “ciência que estuda o ser humano e sua ação no tempo e no espaço” (Wikipédia.org). Assim como esse “senso comum” trata com um significado próprio a genealogia e a história, Nietzsche e Foucault as trazem para um uso peculiar, o qual pode ser entendido com a necessária persistência, no caminho para compreender o que ambos pretendem com seus usos peculiares.
Como Foucault expõe no primeiro tópico de seu texto, a genealogia é distinta da forma de história como praticamos e estudamos usualmente. Isso porque sua genealogia não supõe uma origem ou mesmo um começo, mas sim o momento no qual algo emergiu e pode ser visto, como uma sucessão de começos. É o contrário da história documentada, a qual descreve os acontecimentos úteis que caminharam para um fim de forma linear. Isso pode ser observado na escolarização que foi feita da história da Grécia Antiga ao capitalista Século XXI, organizada como um processo cronológico envolvendo antecedentes, causas e consequências.
Assim, a genealogia é um modo de historiar cinzento: não é definido, é nebuloso e opaco, pois também trata do que estava presente mesmo encoberto ou até ausente. Envolve “invasões, lutas, rapinas, disfarces, artimanhas” entre forças nas “diferentes cenas em que eles desempenharam distintos papéis” (FOUCAULT [1971], 2005). E tais conflitos nem sempre se fazem visíveis ou se fazem mostrar do mesmo modo. É interessante demorar um bocado na questão do cinza, ou cinzento, que compõe a genealogia, não só pela não-linearidade ou devido a todos os cruzamentos e misturas de acontecimentos nesse historiar genealógico, mas também pela não-objetividade que configura numa relação íntima com as memórias dessa história. História que envolve experiência, tato, substância de saberes que se cruzam, manifestam, marcam e se enxergam nas batalhas entre os poderes.
O estudo genealógico é o oposto do bem definido, do preto no branco, por isso é cinza: a mistura do preto no branco ou vice-versa, a contaminação necessária que diz dos muitos aos quais pertencem as memórias das proveniências, e que podem ou não se fazerem no presente das emergências. É nesta simbiose de experiências indefinidas que a genealogia irá se efetivar, pois essa “sujeira” que a contamina é o que justamente inviabiliza a tendência de recorrer a definições que se dizem precisas e objetivas (pretas no branco) acerca do viver.
Além disso, é bastante recorrente o pressuposto de que é possível estabelecer um começo e um fim de uma ideia, de uma pessoa, de um acontecimento, ao se conhecer a sua história, evocando a imagem de uma totalidade e definição de sua forma. Contudo, o que se entende como “começo” é apenas um momento no qual esse algo apareceu e pôde ser visto; assim como o “fim” pode ser compreendido como o momento no qual esse algo deixou de ser visto. Assim, se uma ideia, um sujeito, um acontecimento deixa de ser visto em um dado momento, isso não significa que não possa ser visto novamente; ou que não tenha aparecido antes; ou que não mais existe. Ele apenas pode ainda não ter se tornado visível.
Imagine, por exemplo, o roteiro de um filme que se constrói nas mãos do roteirista. Cada ideia colocada dentro desse roteiro pode ter surgido de algum momento da vida dele, de algo que ele ouviu, experienciou, observou acontecer, ou de sua invenção, mas cuja história não se apresenta no filme ainda que tenha sido parte criadora dele. São justamente essas experiências que a genealogia busca tornar visível: aquilo que não cabe nos começos e fins. E nessa tentativa de mostrar a multiplicidade discursiva das experiências, a genealogia acaba por também tornar visível um pouco dessas narrativas que se dão entrelaçadas, são experiências que não cabem nos começos e fins, e, portanto, são mais do que conseguimos enxergar sob as lentes da história linear costumeira.
Para tanto, é preciso um retardamento como atitude de quem quer lidar com a história. Não se deve apressar o reconhecimento das ocorrências ou mesmo antecipar o suposto fim, pois quando uma investigação é feita de forma rápida encontramos menos histórias, menos verdades inaparentes e menos erros que levam à configuração visível de algo.

Tópicos Dois, Três e Quatro

O segundo tópico de “Nietzsche, a genealogia e a história” é extenso e apresenta diversos termos em alemão, melhor explanados ao longo do terceiro e quarto tópicos, portanto, decidimos fundir esses três tópicos em um único momento, buscando facilitar tanto a organização dos comentários quanto a leitura.
O início do texto comenta sobre os usos que Nietzsche faz da palavra “origem” em seus textos filosóficos, variando seu significado em termos como Ursprung, Entstehung, Herkunft, Abkunft e Geburt, contudo, não é simples traçar uma definição clara e precisa do uso de cada termo, uma vez que o autor os utiliza de maneira alternada como sinônimos, um uso que Foucault chama de não-marcado. Em contrapartida, há um uso marcado em alguns textos de Nietzsche, dos quais Foucault delineia uma diferença entre Ursprung e Herkunft, destacando que os termos Herkunft e Entstehung expressam melhor a pesquisa genealógica. Esse sentido de “marcação” pode ser entendido como uma diferenciação precisa em questão de definição da origem proveniência, origem emergência, origem pesquisa.
Primeiro, a Herkunft é a proveniência, a herança, o pertencimento a um grupo que liga aqueles de mesma altura ou baixeza. No entanto, esse pertencimento não é o de aglutinar cada sujeito, sentimento ou ideia sob características comuns, que gere semelhanças, como pontos de unificação entre iguais, mas dissociar cada um como um, ou seja, fazer aparecer aquilo que torna cada sujeito, sentimento, ideia, diferente um do outro. Ademais, a herança não é aquela que se acumula e se sintetiza no sujeito, ela é o conjunto de falhas, fissuras e heterogeneidades dos muitos acontecimentos que se inscreveram nos ancestrais e no corpo do sujeito. Desse modo, a proveniência não tem a tarefa de reavivar o passado como algo que permanece no presente, mas sim mostrar onde está o passado, os acontecimentos que se inscreveram sobre o corpo e o que dizem sobre ele.
Um dos pontos que se marcou como nebuloso para entender e elaborar esse texto foi o que Foucault apresenta como acontecimento e história, suas diferenças, similitudes e configurações, ao passo em que tentaremos aqui, apenas esboçar um pouco sobre ambos. O que pareceu, para nós, é que o acontecimento dá a noção de parte da história, como se remetesse ao sujeito dessa história dentro das relações de poder, enquanto a história é fruto das proveniências que “arruínam” o corpo e configuram uma emergência. Esse corpo arruinado pela história, diz muito sobre a história como aquela que fala das ocorrências desse corpo, suas experiências e marcas do passado que se faz presente enquanto cicatrizes ou lembranças. Diz-se que arruína o corpo, talvez pois é esse corpo que reage aos acontecimentos, luta, muda, mantém-se vivo, um protagonista não-privilegiado dos acontecimentos, que, enquanto ontológicos, dizem das proveniências desse corpo, das histórias muitas que o marcaram e permanecem nele. Há momentos nos quais Foucault coloca a história como sinônima da emergência, em outros, similar à proveniência, o que torna bastante confuso e dificulto definir propriamente e separadamente essa história do acontecimento, do corpo, etc; mesmo porque todos esses elementos se misturam e não permitem separações bem definidas e objetivas, daí também o cinza antes mencionado.
Prosseguindo com a análise de Foucault sobre a origem, ele discorre sobre a Entstehung, como emergência ou ponto de aparecimento/surgimento das forças as quais entram em combate. Assim, as forças estão sempre em conflito umas com as outras e contra si mesmas, moldando um jogo de dominações cujo espaço entre as forças é o não-lugar da emergência. Esse jogo que afeta o corpo é a proveniência e expressa os embates que aconteceram até o ponto em que essas forças emergiram, mas que não comporta dizer que é a primeira vez que apareceram ou que é a sua origem.
Ao mesmo tempo, o modo de aparecimento atual dessas forças não diz de todas as configurações, funcionalidades, finalidades, em suma, as maneiras como elas emergiram em outros momentos. Nesse sentido, a luta entre as forças apresenta-se de modos nos quais a humanidade instala violências seguidas uma da outra, e nesse jogo de dominação em dominação, mesmo sendo efêmera, é possível que se apoderem das coisas pela necessidade que fazem delas e as moldem aos seus interesses, inclusive os de duração, já que o que uma força quer é que seu domínio dure, seja em tempo corrido ou lembrança.
Uma vez que o jogo de dominações não tem fim, é ilusório pensar que as forças se esvaem e as guerras se esgotam ou se apazíguam sob leis e regras. O desejo das forças de permanecerem dominadoras, o qual as motiva em tentar suprimir umas às outras, ainda que não consigam, pois só existem e se estabelecem em guerra; encontram seu obstáculo principal na efemeridade da dominação. A partir do momento em que se estabelecem as regras, elas não servem ao propósito da “serenidade e do compromisso”, pois são elas que permitem a tentativa da manutenção da dominação, mas também a utilização delas por outros dominadores: as regras em si são vazias, feitas para servirem “a isto ou àquilo”.
Para Nietzsche, então, a pesquisa da origem (Ursprung) não é aquela que procura uma essência, a coisa em si, como se houvesse um começo no qual a verdade e a identidade dessa coisa se encontrem. Assim, caso houvesse um movimento que conseguisse alcançar a essência de algo, as coisas teriam uma origem, o que é semelhante ao mundo das ideias de Platão, no qual as coisas seriam encontradas em sua perfeição criadora e seriam a fonte para o mundo sensível. Para Nietzsche, o começo histórico das coisas é simplesmente o ponto no qual elas emergiram (Herkunft) e foram vistas e não o momento criador delas, mesmo porque não se pode traçar uma linearidade causadora das coisas, ou ainda controlar sua ocorrência através das forças que as compõe, pois são diversas as contradições, lutas, artimanhas, discórdias entre as forças (Entstehung) que culminam no aparecimento da “coisa”.
Por isso é necessário se reter às meticulosidades dos começos, no pluralismo dos modos e de quando as coisas emergiram para serem vistas, para fugir do essencialismo da história tradicional e tentar estudar a história de maneira genealógica.

Tópico Cinco

O tópico cinco se estrutura em uma diferenciação entre a história habitual (ou supra-história) e o sentido histórico (ou história efetiva), apesar de posteriormente Foucault destacar que não se deve dissociar os modos de fazer história em sistemas opostos. Contudo, faz-se necessário ressaltar as entrelinhas desses modos de historiar, mesmo que organizemos sob um viés supra-histórico.
O próprio termo supra-histórico já diz da posição em que o sujeito da história está sobre ela, se separando de seu objeto com um duplo intuito: garantir uma neutralidade, impedindo que o objeto tenha marcas do historiador; e alcançar uma totalidade fechada em si mesma, segregando e categorizando os elementos que compõem esse objeto. A história habitual também se apoia na busca de uma origem na qual se encontra uma verdade eterna que cruza a linearidade da história a qual se propõe contar, um corpo fixo que se reconhece em todo lugar e se reencontra no passado. Por se apoiar em conceitos e pressupostos que baseiam seus estudos em rumo de uma conclusão, o historiador supra-histórico acredita em uma continuidade ideal e num encadeamento natural dos fatos, como se a humanidade estivesse em uma esteira rumo ao progresso.
A história efetiva não se apoia em nenhum absoluto, exercendo um olhar que distingue e dispersa em vez de unificar. Ela elimina a estabilidade e corta o corpo, fazendo-o aprender a se movimentar segundo suas paixões. O sentido histórico então compreende o mundo como a relação de diversos acontecimentos entrelaçados, os quais são relações de forças que surgem sem controle, providência ou causa final. Ele reconhece os sumiços, os fracassos e os reaparecimentos dessas forças nesse jogo de dominação, não sendo possível traçar uma linearidade. A pesquisa genealógica se movimenta através das paixões e vontades de quem a construiu, impregnando o fazer histórico com suas perspectivas e ângulos, escancarando a impossibilidade de uma pesquisa neutra baseada nos “fatos em si”.

Tópico Seis

Ao tratar do fazer-história, seja na lógica do supra-histórico ou na da história efetiva, deve-se tocar a proveniência dos historiadores, devido a ambos terem uma genealogia comum, por isso a necessidade de ser meticuloso para fazer emergir a verdade daquilo contado pelo historiador, em repetidas palavras, da verdade própria que o historiador pesquisa e afirma. Ainda assim, para uma melhor compreensão, tentar distingui-los é a escolha que tivemos.
Tanto a supra-história quanto o sentido histórico se impõem ao dever de nada excluir, tudo conhecer, sem dar grau de importância e não deixar algo escapar, de modo que a história efetiva o faz pela escolha do historiador em contar uma história. Mas como se a escolha implica numa exclusão? A história não deve excluir, mas o historiador possui seus gostos, suas marcas e preferências que moldam a escolha sobre o que contar. Ele surpreende os segredos que rebaixam os fatos no momento em que reduz tudo ao mais fraco denominador, isso com o foco de se aproximar do objeto para depois se afastar dele, como mencionado no tópico anterior.

Nesse instante, a supra-história traça nos seus historiadores o papel de se destituírem de si mesmos, como corpos sem identidade e sem nome “para que os outros entrem em cena e possam tomar a palavra” (FOUCAULT [1971], 2005, p. 276), ou seja, sob um pretexto da objetividade e exatidão dos fatos, os historiadores calam suas preferências e superam aversões na busca pela totalidade impessoal do passado.
É nesse momento que Foucault o assemelha aos demagogos, como um duplo, uma cópia diferente pois invés de afirmar a grandeza, ele afirma a baixeza do passado que escreve. Michel Foucault enxerga a demagogia em escrever aquilo que deve ser escrito, as leis de uma vontade superior que “deve esconder seu singular rancor sob a máscara do universal”, ele reduz sob uma vontade superior que dirige tudo a um fim, suas causas finais, sua teleologia (estudo dos fins).
A emergência da história aponta para a Europa do século XIX: aquela mentirosa e hipócrita que afirmava e exaltava a identidade única e pura enquanto nem a possuía por ser uma mistura indefinida, omitindo e dispensando o que não lhe interessava. O que a análise genealógica faz é inverter esse papel demagógico da história em busca de um sentido antiplatônico e antipositivista. Longe da busca de uma verdade essencial, primeira, volta a história contra seu nascimento, o contrário do que Platão fez por Sócrates pelo motivo dele simplesmente ter fundado a lógica socrática ao abordá-la, ainda que tivesse sido “tentado” a mudá-la, como menciona Foucault. Esse uso ora contrário a Platão, ora no ritmo que Platão seguiu em relação a Sócrates, é outro ponto confuso que Foucault apresenta ao final do tópico seis.

Tópico Sete

Foucault finaliza o seu texto “Nietzsche: a Genealogia, a História” demarcando os usos genealógicos da história e opostos aos usos platônicos, de forma a contrariar o modelo de história que se embasa na realidade, identidade e verdade; são eles: o paródico, o dissociativo e o sacrificial.
O uso paródico, burlesco ou destruidor da realidade se opõe ao reconhecimento histórico, aquele que diz da identidade individualizada de um povo como o europeu, e a reencontra no presente como um modelo original que baseia toda uma nação e pode nem sequer ter existido. Não há como voltar na cronologia temporal para se reencontrar e muito menos se realizar em uma identidade una, como muitos que enaltecem seus antepassados vikings, arianos, troianos ou uma grande nacionalidade alemã, francesa, inglesa.
O uso destruidor da identidade ou dissociativo, é o que quebra a identidade, se opõe à tradição e não busca um território único de onde viemos e podemos retornar, mas sim as descontinuidades e multiplicidades que se atravessam em sistemas complexos sem poder de síntese, como querem que seja a identidade europeia, norte-americana, etc. Todos fabricamos máscaras de identidades, modelos que não passam disso pois tentam homogeneizar os sistemas heterogêneos, que impedem qualquer identidade real.
Por fim, o uso sacrificial e destruidor da verdade, que se opõe à história fundada sob um sujeito do conhecimento, cientificista e livre de paixões e concepções. A história crítica que só se preocupa com a verdade sacrifica as fontes reais de conhecimento e tenta se aproximar da verdade universal, algo que Foucault desaprova no sentido de que o querer-saber, o conhecimento, sempre é corte, pois marca o corpo e faz ser visto e lembrado através da dor que causa.

* * * * *

Essas páginas escritas com base em Nietzsche, a Genealogia, a História foram fruto das marcas que o texto inscreveu nos corpos de dois estudantes que as compuseram, com a participação do professor Kleber. Assim, é válido ressaltar as muitas possibilidades do texto de Foucault, em especial, de todas as partes que não foram mencionadas aqui, talvez por não serem consideradas relevantes ou por não terem saltado do papel para a discussão, falada no grupo de estudos e escrita no texto acima.

Assim, na tentativa de facilitar a leitura dos tópicos escritos pelo filósofo francês, destaca-se que ao longo do exercício de criação, esse material impregnou-se pelas impressões, percepções e perturbações dos discentes, aparecendo, desse modo, como um propagador de experiências. Ademais, como exposto pelas dificuldades encontradas na leitura, discussão e transposição do texto de Foucault, reafirmamos o caráter de construção inacabada desse material, e a despeito dos (des)entendimentos e (des)encontros que possam vir a ser produzidos, salienta-se a abertura e a necessidade de conversa ao redor do que foi produzido e também do texto original, pois apesar da intenção de tentar facilitar a leitura de Nietzsche, a Genealogia, a História, servindo como texto de apoio, outras facilitações podem ser realizadas com contribuições de outras pessoas.

Referência Bibliográfica
FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história (in) FOUCAULT, M. Arqueologia das Ciências e história dos sistemas de pensamento: Ditos e escritos II. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

* Estudantes do curso de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe

A psicologia, a novidade e o presente

Outro dia, após uma aula de Ética, voltei pra casa inquieto. Uma necessidade de conversar com os pensamentos emergia e tomava o lugar da playlist que me acompanha e ajuda a encarar os muitos quilômetros que que separam a UFS do Mosqueiro, onde moro. Era uma questão simples e viva que apareceu a partir da leitura de comentários feitos na sala de aula, sobre os Princípios Fundamentais do Código de Ética Profissional do Psicólogo. O quarto fundamento desses Princípios despertou numa aluna um questionamento que se fez uma espécie de platô para essa história. Esse tópico diz:

O psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico de conhecimento e de prática. (1)

A estudante buscava problematizar a questão do aprimoramento profissional, que a seu ver, anda um tanto distante de algumas disciplinas que tem cursado. Recordo que ela fez referência a um recorrente retorno a discussões do século XIX, e reclamando da ausência de novidades, anunciou que trocaria alguns dos textos estudados por algo que falasse da Psicologia do Esporte, por exemplo.

A questão foi para a turma. Alguns compraram a conversa e se posicionaram. Foi um debate interessante e deu gosto assistir como os argumentos se faziam e se articulavam. Entretanto, além do debate que acontecia na sala, um outro viés de conversa aparecia pra mim e se enredava em outras histórias, para além das fronteiras da disciplina de Ética. Após as falas das alunas e alunos, fiz algumas ponderações, mas isso parece não ter conseguido me aquietar e agora, em linhas, tento dar extensão a esse incômodo.

A psicologia, a novidade e o presente na relação aqui disposta, dizem de um enredamento de muitas outras forças e interesses, que passam pela conceituação e usos do que se busca fazer com a psicologia, a novidade e o presente. Pra mim, nessa articulação, busco pensar os efeitos que se pode produzem, quando o entendimento de presente, é retirado dessa relação.

Ainda na sala me apeguei a duas poesias cantadas e com elas vou caminhar um tanto por aqui: Velha Roupa Colorida (2) do cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, e A novidade (3) do baiano Gilberto Passos Gil Moreira. Algumas vezes, na lida acadêmica, me alio à música brasileira, para aproximar a psicologia que faço da arte e da filosofia, que assumem uma forma poética, para dizer do humano que fomos e que temos sido. Isso me parece função da psicologia, também.

Em Velha Roupa Colorida, Belchior anuncia os efeitos que se induz na subjetividade, a ciranda recorrente que tematiza o velho e o novo como necessidades para a experiência do viver. Algo como essas mudanças anunciadas demandando incorporações que impregnam na alma a corrida por rejuvenescimento. O andamento da canção é um rock dos anos 60 que vai repetindo, quase como mantra, ao seu final, que “precisamos todos, rejuvenescer”.

É possível escutar um manifesto contra o conservadorismo brasileiro dos anos 70 na canção de Belchior, tomada assim como uma revolucionária resistência para aquele tempo. Mas não estamos mais naquela temporalidade, apesar dela ainda estar na gente. E é essa a relação que faz aparecer o tal presente como algo que deva ser pensado em articulação com aquilo que se diz novidade.

Por presente podemos pensar aquilo que se efetiva num extensão de tempo, numa temporalidade. Vai além da noção do aqui e agora, pois essa faz uma restrição da temporalidade à condição espacial. O aqui se mostra primeiro como espaço, materialidade que se pode medir, para só depois configurar a experiência do agora. Nisso que chamo de presente, acompanhado de leituras do Michel Foucault, inverter essa máxima fenomenológica, já seria uma boa decisão. Dai algumas questões: o que é esse agora que experimento? Há nele aquilo que já foi “agora” noutra temporalidade? O que e como essa temporalidade passada, se atualiza (se efetiva), na temporalidade presente? Entendo que desse modo, algo do que se tomava por passado, resiste no tempo e se faz presente no agora que se tematiza.

Assim, o que Belchior alerta nos anos de 1970 não pode ser o mesmo que sua canção alerte nesses tempos que tomamos por 2017 dC. Daí se o rejuvenescer de lá era revolucionário, buscava inventar novos modos de vida, outras relações possíveis, o rejuvenescer de cá, desse agora que experimentamos, diz mais de um apego em estar na crista da onda, uma resistência à velhice, que também sempre chega. Lá o rejuvenescer alumiava a demanda por companhia, por laços possíveis entre pessoas, algo que Guattari chama de agenciamentos coletivos de enunciação (4).

Já pra cá, pra esse presente que se efetiva em nosso agora, rejuvenescer se faz em manter um espaço de aparência e experimentar o bom da vida como se ele pudesse ser tomado como um show do eu (5). Humanos buscando rejuvenscer no Brasil nos anos de 1970 produz uma imagem (história) muito distinta de humanos buscando rejuvenescer nesse presente que habitamos.

Mas para não desenvolver muito esse argumento apenas com Belchior, esse “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” do Ceará, busco em Gilberto Gil uma outra intercessão pra pensar essa relação entre o novo e o presente.

O ano é 1986 e Gilberto Gil atende a um pedido de Hebert Viana, da banda Paralamas do Sucesso, de fazer a letra para uma música do disco Selvagem. Ai a poesia de Gil faz brotar uma história daquilo que desperta a aparição de uma sereia numa praia brasileira: “alguns a desejar seus beijos de deusa, outros a desejar seu rabo pra ceia”. Duas novidades, dois desejos e um paradoxo da desigualdade a prevenir sobre os riscos que o mundo produzia para si. A guerra como um pesadelo recorrente mostra o novo sonho que se desenvolve, e como já não cabe nele todos os que desejam, todos os que sonham. A vida presente no Brasil dos anos de 1980 na poesia Gil denunciava uma crise do que começava a deixar pra trás ideias de coletividade presentes outrora, imprimindo nos modos de ser e estar na vida, a condição individual que se impõe sobre as demais.

Até aqui, marcando alguma cronologia, essa escrita sai de 2017, vai aos anos de 1970 com Belchior e sua Velha Roupa Colorida, e traz esse “canto torto feito faca” para cortar o agora que habitamos. Depois vai aos anos de 1980 com Gil pra dispor a novidade que se reparte em furor sexual e barriga vazia acontecendo na mesma praia, duas ondas, pelo menos, batendo no mesmo instante. Impossível surfar as duas. Agora uma passagem rápida pelos anos de 1990, quando ingressei como aluno no curso de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

Em 1993, já possuía graduação em Jornalismo, pela UFC, mas essa profissão parecia não me caber e algo em mim fantasiava a escuta psicanalítica como objeto do desejo. Consegui passar pelo vestibular e iniciei os estudos. Algumas disciplinas e a vontade psicanalítica, como todo sólido na modernidade, evaporou. Entretanto, outro corpo psi se fazia, esse não era afeito, em demasia, aos desejos da hora. Buscava me entender numa história, onde muitas forças compõe os sentidos. Com Nietzsche e Foucault poderia dizer disso através das genealogias que instituíam formas e modos de vida.

E assim aprendi um pouco nessa experiência de estudante de psicologia, a não desvincular arbitrariamente essas duas condições que se colocam para qualquer experiência humana, no caso a relação entre a novidade e o presente. De outro modo: aquilo que se apresenta como uma novidade para um indivíduo qualquer, já não é novidade para quem faz essa apresentação. Ora, se assim o for, porque isso é apresentado como novidade ou mesmo, porque o apresentador da mesma, permite que seu público tenha aquilo como uma novidade, que para ele já não é?

Nesses 25 anos de Psicologia, essa conduta tem interferido em muitas das decisões que precisei ou quis tomar, como a escrita desse texto, por exemplo. É importante pensar que a Psicologia, como qualquer outro campo de saber, não deve se constituir como um fundamento que possa se confundir com um objeto de desejo, daquele que esteja num processo de formação nesse campo. Uma vontade não deve ganhar uma forma objetiva antes de seu último suspiro.

Em Psicologia, como alerta Luis Antonio Baptista (6), a escuta do indivíduo, na ausência da história que o constituí, se faz surda, pela sua deliberação em objetivar. Como se o efeito futuro se antecipasse aos acontecimentos que lhe disparariam. Complicando um pouquinho, isso faria o futuro, que efetivamente não existe como futuro, ser a causa de si mesmo.

Chamo mais um amigo do pensar essa história, o paraibano Augusto dos Anjos (7) e um soneto seu, escrito há mais de 100 anos, para dizer dessa questão, a qual ele nomeou por Insânia:

No mundo vago das idealidades
Afundei minha louca fantasia;
Cedo atraiu-me a auréola fulgidia
Da refulgência antiga das idades.

Mas ao esplendor das velhas majestades
Vacila a mente e o seu ardor esfria;
Busquei então na nebulosa fria
Das ilusões, sonhar novas idades.

Que desespero insano me apavora!
Aqui, chora um ocaso sepultado;
Ali, pompeia a luz da branca aurora

E eu tremo e hesito entre um mistério escuro
– Quero partir em busca do Passado
– Quero correr em busca do Futuro.

Nesse agora dessa escrita, muito do que em mim era estranheza e incômodo, foi ganhando uma consistência bacana. Agradeço a sala de aula por isso. Mas sei que a conversa não se encerra e que ela precisa se manter aberta com quem se dispuser, mas principalmente em mim. É assim que exerço alguma liberdade e autonomia.

A sanha da individualidade é bicho contorcionista, silencioso e que não gosta de deixar rastro. Somos muito essa individualidade em nosso agora, e isso costuma, por conveniência, acreditar que o presente é a novidade, e vice-versa. Entretanto não somos, ainda, uma totalidade que se expressa apenas no cada um no seu cada qual ou na sua individualidade. Esse modo de ser que resiste a individualidade extrema, se pulsa em mim e em você, saiba que ele só o faz, por ser uma força que não aceitou jamais a novidade como algo que fosse além de uma fugaz impressão do sensível, que não sei por que cargas d’água, passou a constituir subjetividades serializadas no contemporâneo.

Referências

  1. http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-de-etica/

  2. http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Disco=DI00648

  3. http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_info.php?id=377&letra

  4. GUATTARI, Felix, ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografia do desejo. Petropolis. 1996.

  5. http://www.scielo.br/pdf/ha/v16n33/15.pdf

  6. BAPTISTA, Luis Antonio. A cidade dos sábios. São Paulo: Summus, 1999.

  7. DOS ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

Como não “rachar as palavras, rachar as coisas”?

Divagando num pedaço de manhã escolhido para fugir ao ordinário do dia, rencontro essa questão: como não “rachar as palavras, rachar as coisas” quando um vivo experimenta uma vida? Como dizer uma palavra, qualquer que seja, sem que se imprima nela o toque singular de toda voz? Como não criar ideias e sensações ante aquilo que se percebe ou sente? A vida não permite imunidade ao vivo, por mais esforços que se façam para contrariar esse fluxo ou resistir a vocação dessas forças que pulsionam a matéria viva.

Isso pode parecer estranho, complexo ou coisa parecida, mas a poesia encontra modos de rachar essa dificuldade, como Paulo Leminski em O que o barro quer:

o barro
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

Ou ainda com Manuel de Barros em o Retrato do artista quando coisa:

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Barro que se faz jarro, tijolo, lama; Barros que borboletiza humanidades, a vida segue sem direção exclusiva, sem um norte por assim dizer. Um norte que pode ser o sul de um lugar que lhe esteja acima, numa relação de escala. Isso poderia aguçar a tentação de afirmar a relatividade ou a objetividade das coisas enquanto modos e formas, das palavras enquanto sentenças. Entretanto, essa tentação seria uma triste armadilha para o pensamento.

Uma sentença que prima pela objetividade se faz entre apenas duas circunstâncias. A objetividade não produz corte, quando muito estabelece um recorte. Ela separa, fraciona a vida através de um foco, para depois, com esse foco esmiuçado, supor possibilidades de generalização. Arrisco dizer que ela retira a vida do viver, manipula suas forças, filtra o que considera inconsistências e normativamente, faz retornar a vida para a atualidade dos vivos, como um  parâmetro a ser apreendido, uma meta para as existências que carecem de certezas.

Sobre possíveis convergências entre seu trabalho e o de Michel Foucault, Gilles Deleuze diz:

É nos agenciamentos que encontraríamos focos de unificação, nós de totalização, processos de subjetivação, sempre relativos, a serem desfeitos a fim de seguirmos ainda mais longe, uma linha agitada. Não buscaríamos origens mesmo perdidas ou rasuradas, mas pegaríamos as coisas onde elas crescem, pelo meio: rachar as coisas, rachar as palavras. Não buscaríamos o eterno, ainda que fosse a eternidade do tempo, mas a formação do novo, a emergência ou o que Foucault chamou de atualidade. (1)

Atenção para o momento onde Deleuze acentua a necessidade de desfazer os “nós de totalização”, ou seja;  “rachar as coisas, rachar as palavras”. Entendo que ai se encontra uma boa lição para as vontades de invenção na vida. Retomo o verbo “desfazer”. Ele não pode significar um retorno, uma tentativa de encontrar um fundamento essencial para aquilo do que se trata. Desfazer é antes, não tomar como o feito aquilo que se mostra. Uma decisão que afirma que qualquer resultado ou totalização, é antes efeito de uma história de enfrentamentos. Como desconsiderar os enfrentamentos para tão somente afirmar a seu resultado?

Na relação Leminski e barro, esse último ganha as formas da tensão das mãos que lhe manipulam, mas é ele o efeito provisório dessa manipulação, como se levasse consigo a verdade do trabalho manual. Não é síntese, é encaminhamento de um jogo, de uma luta.

Assim como Manuel de Barros e a incompletude que escapa às palavras. Essas, diferentemente da matéria-barro, jamais conseguem ser a forma que consagra a matéria-humana. Almejam sínteses, as palavras, e se afogam nessa impossibilidade para emergir noutras tentativas.

Qualquer unidade já é cindida em sua natureza. Não há na física uma matéria que viva isolada no mundo. Aquilo que se apresenta é mistura em sua história, em seu devir. Daí a decisão por consertos para a vida e o viver. Forçar emergências, compor atualidades, ou como apontaria Foucault; desencaminhar o presente.

Rachar as coisas e as palavras funciona como um propósito ou uma ética. Nesse sentido, nos serve como modos de acionar as ferramentas da caixa posta por Foucault, das quais já se falou um pouco nessa Oficina. Um modo de produzir consertos. Quando a vida tem conserto, se racha a ideia corrente de que é preciso reformar as coisas.

Impressiona como não se estranha o clamor cotidiano por reformas no contemporâneo. Tudo parece disposto às reformas: corpos, leis, normas, relacionamentos, religiões, ambientes, ensino, edificações, etc. Já as possibilidades de conserto parecem resignadas aos momentos extremos de catarse, quando já não dá mais pra segurar o próprio clamor por reformas.

Insisto: como não rachar as palavras, rachar as coisas?

(1).  DELEUZE, Gilles. Rachar as palavras, rachar as coisas. (in) Conversações. São Paulo. Editora 34, 2013.

 

“Que esse canto torto, feito faca corte a carne de vocês”

De maneira seca, direta como um martelo que bate em um prego para que penetre numa superfície qualquer, o filósofo Belchior, na música À palo seco, declara a vontade que seu “canto torto, feito faca, corte a carne” de quem lhe ouve.

A narrativa do poema cantado diz de uma resposta que Belchior apresenta a uma pergunta formulada também por ele, nessa canção. Assim, a questão “se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava”, faz emergir um corpo posto em desespero, de aproximadamente 25 anos em 1973, que anuncia a sua condição de vivo e a sua vontade.

A vida entre sonhos, sangue e América do Sul rasga qualquer véu de representação para dizer no crú da coisa, do seu possível com seu grito. O que emerge no cantar é o que provém da vida do cantor, a história que lhe percorre e a que ele percorreu nesse quarto de século. Como se o cantante e seu canto se fizessem juntos num outro corpo e mais que detalhar o vivido, a decisão de confessar que viveu. Com isso, dá relevo a esse saber produzido pelo vivido, que lhe está encarnado. Veja aí!

Cortar na carne alheia pode sugerir uma perversão, mas penso que esse corte é antes uma subversão, uma busca por desordem ou desorientação de uma norma estabelecida. O corte como uma outra maneira de lidar com a experiência de compor e de cantar.

Para tratar um pouco disso, deixo Belchior e busco em Michel Foucault alguma reverberação para o que digo. No texto Nietzsche, a genealogia e a história, Foucault produz uma ideia de história efetiva que contraria o entendimento de que é possível determinar uma origem para as coisas da vida, uma explicação causal para as mesmas.

Nesse debate contra a origem, duas outras expressões emergem para montar a lógica do acontecimento. Com Nietzsche, Foucault diz de dois movimentos que permitem uma outra compreensão histórica; no caso a proveniência e a emergência. Arriscando uma simplificação, um acontecimento poderia ser tomado como aquilo que emerge enquanto efeito do que lhe provém. Algo marcado pela heterogeneidade das forças, que postas em relação, lhe permitiram aparecer. Para Foucault, a história genealógica “agita o que antes se percebia como imóvel, fragmenta o que se pensava unificado” (1), e inscreve nos corpos os acontecimentos da vida.

O corpo – e tudo o que se refere ao corpo: a alimentação, o clima, o solo – é o lugar da proveniência: no corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados, assim como dele nascem os desejos, os desfalecimentos e os erros; nele também se ligam e subitamente se exprimem, mas nele também se desligam, entram em luta, se apagam uns e outros e prosseguem seu insuperável conflito. (…) A genealogia, como análise da proveniência, está, portanto, na articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado pela história, e a história arruinando o corpo (1).

Pensando um pouco a emergência dos versos “de sonho, de sangue e de América do Sul” e “por força desse destino, um tando argentino me cai bem melhor que um blues”, há a ntes a apresentação da vida feita de lutas, que uma síntese de uma experiência individual. Não há transcendência em À palo seco. O destino diz do possível, dessa relação com o presente como algo que se habita, que se experimenta,  e não como um futuro que se pode antecipar.

O presente é a emergência, é o possível no jogo das forças da vida.

A emergência sempre se produz em um determinado estado de forças. A análise da emergência deve mostrar seu jogo, o modo pelo qual elas lutam umas contra as outras, ou o combate que travam diante de circunstâncias adversas, ou ainda sua tentativa – dividindo-se contra si mesmas – de escapar a degenerescência e recobrar o vigor a partir de seu próprio enfraquecimento (1).

Datas, frases e monumentos que buscam representar a coisa histórica parecem dizer quase nada da vida quando contrapostos a efetividade da genealogia disposta por Nietzsche. Demandam compreensão os ditos documentos históricos, mas forçam o entendimento para se manterem como registros da verdade.

À palo seco não é uma vontade de ensinar um caminho de vida a ser percorrido, uma trilha que seja. À palo seco é a emergência dos embates que permitiram o caminhar, quando se acentua como esse trajeto foi feito “de sonhos, de sangue e de América do Sul”. De outro modo, caminhar feito com cortes, que podem ser tomados por descontinuidades.

Diz Foucault,

A história será “efetiva” à medida que reintroduzir o descontinuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos, multiplicará nosso corpo e o oporá a ele mesmo. Ela não deixará debaixo de si nada que tivesse a estabilidade asseguradora da vida ou da natureza, não se deixará levar por nenhuma obstinação muda na direção de um fim milenar. Ela irá esvaziar aquilo sobre o que se costuma fazê-la repousar, e se obstinará contra a sua pretensa continuidade. Porque o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar (1).

Esse trecho de Nietzsche, a genealogia, a história é de uma beleza singular, enquanto expressão de um modo de enxergar a vida se fazendo. É texto para ler devagar, pensar as conexões que as palavras montam e os sentidos que conseguem produzir.

Belchior e a vontade “que esse canto torto, feito faca corte a carne de vocês”. Foucault  e a ideia de que “o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar”.  O que pode esse encontro?

Para esse mecânico, esse encontro diz que a vida pode e que ela, a vida, em canto e em pensamento corte mais, e mais, e mais!

(1) FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia, a história. (in) Ditos e escritos II: Arqueologia das ciências e histórias dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.