Arquivos mensais: dezembro 2016

Como não “rachar as palavras, rachar as coisas”?

Divagando num pedaço de manhã escolhido para fugir ao ordinário do dia, rencontro essa questão: como não “rachar as palavras, rachar as coisas” quando um vivo experimenta uma vida? Como dizer uma palavra, qualquer que seja, sem que se imprima nela o toque singular de toda voz? Como não criar ideias e sensações ante aquilo que se percebe ou sente? A vida não permite imunidade ao vivo, por mais esforços que se façam para contrariar esse fluxo ou resistir a vocação dessas forças que pulsionam a matéria viva.

Isso pode parecer estranho, complexo ou coisa parecida, mas a poesia encontra modos de rachar essa dificuldade, como Paulo Leminski em O que o barro quer:

o barro
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

Ou ainda com Manuel de Barros em o Retrato do artista quando coisa:

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Barro que se faz jarro, tijolo, lama; Barros que borboletiza humanidades, a vida segue sem direção exclusiva, sem um norte por assim dizer. Um norte que pode ser o sul de um lugar que lhe esteja acima, numa relação de escala. Isso poderia aguçar a tentação de afirmar a relatividade ou a objetividade das coisas enquanto modos e formas, das palavras enquanto sentenças. Entretanto, essa tentação seria uma triste armadilha para o pensamento.

Uma sentença que prima pela objetividade se faz entre apenas duas circunstâncias. A objetividade não produz corte, quando muito estabelece um recorte. Ela separa, fraciona a vida através de um foco, para depois, com esse foco esmiuçado, supor possibilidades de generalização. Arrisco dizer que ela retira a vida do viver, manipula suas forças, filtra o que considera inconsistências e normativamente, faz retornar a vida para a atualidade dos vivos, como um  parâmetro a ser apreendido, uma meta para as existências que carecem de certezas.

Sobre possíveis convergências entre seu trabalho e o de Michel Foucault, Gilles Deleuze diz:

É nos agenciamentos que encontraríamos focos de unificação, nós de totalização, processos de subjetivação, sempre relativos, a serem desfeitos a fim de seguirmos ainda mais longe, uma linha agitada. Não buscaríamos origens mesmo perdidas ou rasuradas, mas pegaríamos as coisas onde elas crescem, pelo meio: rachar as coisas, rachar as palavras. Não buscaríamos o eterno, ainda que fosse a eternidade do tempo, mas a formação do novo, a emergência ou o que Foucault chamou de atualidade. (1)

Atenção para o momento onde Deleuze acentua a necessidade de desfazer os “nós de totalização”, ou seja;  “rachar as coisas, rachar as palavras”. Entendo que ai se encontra uma boa lição para as vontades de invenção na vida. Retomo o verbo “desfazer”. Ele não pode significar um retorno, uma tentativa de encontrar um fundamento essencial para aquilo do que se trata. Desfazer é antes, não tomar como o feito aquilo que se mostra. Uma decisão que afirma que qualquer resultado ou totalização, é antes efeito de uma história de enfrentamentos. Como desconsiderar os enfrentamentos para tão somente afirmar a seu resultado?

Na relação Leminski e barro, esse último ganha as formas da tensão das mãos que lhe manipulam, mas é ele o efeito provisório dessa manipulação, como se levasse consigo a verdade do trabalho manual. Não é síntese, é encaminhamento de um jogo, de uma luta.

Assim como Manuel de Barros e a incompletude que escapa às palavras. Essas, diferentemente da matéria-barro, jamais conseguem ser a forma que consagra a matéria-humana. Almejam sínteses, as palavras, e se afogam nessa impossibilidade para emergir noutras tentativas.

Qualquer unidade já é cindida em sua natureza. Não há na física uma matéria que viva isolada no mundo. Aquilo que se apresenta é mistura em sua história, em seu devir. Daí a decisão por consertos para a vida e o viver. Forçar emergências, compor atualidades, ou como apontaria Foucault; desencaminhar o presente.

Rachar as coisas e as palavras funciona como um propósito ou uma ética. Nesse sentido, nos serve como modos de acionar as ferramentas da caixa posta por Foucault, das quais já se falou um pouco nessa Oficina. Um modo de produzir consertos. Quando a vida tem conserto, se racha a ideia corrente de que é preciso reformar as coisas.

Impressiona como não se estranha o clamor cotidiano por reformas no contemporâneo. Tudo parece disposto às reformas: corpos, leis, normas, relacionamentos, religiões, ambientes, ensino, edificações, etc. Já as possibilidades de conserto parecem resignadas aos momentos extremos de catarse, quando já não dá mais pra segurar o próprio clamor por reformas.

Insisto: como não rachar as palavras, rachar as coisas?

(1).  DELEUZE, Gilles. Rachar as palavras, rachar as coisas. (in) Conversações. São Paulo. Editora 34, 2013.