A psicologia, a novidade e o presente

Outro dia, após uma aula de Ética, voltei pra casa inquieto. Uma necessidade de conversar com os pensamentos emergia e tomava o lugar da playlist que me acompanha e ajuda a encarar os muitos quilômetros que que separam a UFS do Mosqueiro, onde moro. Era uma questão simples e viva que apareceu a partir da leitura de comentários feitos na sala de aula, sobre os Princípios Fundamentais do Código de Ética Profissional do Psicólogo. O quarto fundamento desses Princípios despertou numa aluna um questionamento que se fez uma espécie de platô para essa história. Esse tópico diz:

O psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico de conhecimento e de prática. (1)

A estudante buscava problematizar a questão do aprimoramento profissional, que a seu ver, anda um tanto distante de algumas disciplinas que tem cursado. Recordo que ela fez referência a um recorrente retorno a discussões do século XIX, e reclamando da ausência de novidades, anunciou que trocaria alguns dos textos estudados por algo que falasse da Psicologia do Esporte, por exemplo.

A questão foi para a turma. Alguns compraram a conversa e se posicionaram. Foi um debate interessante e deu gosto assistir como os argumentos se faziam e se articulavam. Entretanto, além do debate que acontecia na sala, um outro viés de conversa aparecia pra mim e se enredava em outras histórias, para além das fronteiras da disciplina de Ética. Após as falas das alunas e alunos, fiz algumas ponderações, mas isso parece não ter conseguido me aquietar e agora, em linhas, tento dar extensão a esse incômodo.

A psicologia, a novidade e o presente na relação aqui disposta, dizem de um enredamento de muitas outras forças e interesses, que passam pela conceituação e usos do que se busca fazer com a psicologia, a novidade e o presente. Pra mim, nessa articulação, busco pensar os efeitos que se pode produzem, quando o entendimento de presente, é retirado dessa relação.

Ainda na sala me apeguei a duas poesias cantadas e com elas vou caminhar um tanto por aqui: Velha Roupa Colorida (2) do cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, e A novidade (3) do baiano Gilberto Passos Gil Moreira. Algumas vezes, na lida acadêmica, me alio à música brasileira, para aproximar a psicologia que faço da arte e da filosofia, que assumem uma forma poética, para dizer do humano que fomos e que temos sido. Isso me parece função da psicologia, também.

Em Velha Roupa Colorida, Belchior anuncia os efeitos que se induz na subjetividade, a ciranda recorrente que tematiza o velho e o novo como necessidades para a experiência do viver. Algo como essas mudanças anunciadas demandando incorporações que impregnam na alma a corrida por rejuvenescimento. O andamento da canção é um rock dos anos 60 que vai repetindo, quase como mantra, ao seu final, que “precisamos todos, rejuvenescer”.

É possível escutar um manifesto contra o conservadorismo brasileiro dos anos 70 na canção de Belchior, tomada assim como uma revolucionária resistência para aquele tempo. Mas não estamos mais naquela temporalidade, apesar dela ainda estar na gente. E é essa a relação que faz aparecer o tal presente como algo que deva ser pensado em articulação com aquilo que se diz novidade.

Por presente podemos pensar aquilo que se efetiva num extensão de tempo, numa temporalidade. Vai além da noção do aqui e agora, pois essa faz uma restrição da temporalidade à condição espacial. O aqui se mostra primeiro como espaço, materialidade que se pode medir, para só depois configurar a experiência do agora. Nisso que chamo de presente, acompanhado de leituras do Michel Foucault, inverter essa máxima fenomenológica, já seria uma boa decisão. Dai algumas questões: o que é esse agora que experimento? Há nele aquilo que já foi “agora” noutra temporalidade? O que e como essa temporalidade passada, se atualiza (se efetiva), na temporalidade presente? Entendo que desse modo, algo do que se tomava por passado, resiste no tempo e se faz presente no agora que se tematiza.

Assim, o que Belchior alerta nos anos de 1970 não pode ser o mesmo que sua canção alerte nesses tempos que tomamos por 2017 dC. Daí se o rejuvenescer de lá era revolucionário, buscava inventar novos modos de vida, outras relações possíveis, o rejuvenescer de cá, desse agora que experimentamos, diz mais de um apego em estar na crista da onda, uma resistência à velhice, que também sempre chega. Lá o rejuvenescer alumiava a demanda por companhia, por laços possíveis entre pessoas, algo que Guattari chama de agenciamentos coletivos de enunciação (4).

Já pra cá, pra esse presente que se efetiva em nosso agora, rejuvenescer se faz em manter um espaço de aparência e experimentar o bom da vida como se ele pudesse ser tomado como um show do eu (5). Humanos buscando rejuvenscer no Brasil nos anos de 1970 produz uma imagem (história) muito distinta de humanos buscando rejuvenescer nesse presente que habitamos.

Mas para não desenvolver muito esse argumento apenas com Belchior, esse “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” do Ceará, busco em Gilberto Gil uma outra intercessão pra pensar essa relação entre o novo e o presente.

O ano é 1986 e Gilberto Gil atende a um pedido de Hebert Viana, da banda Paralamas do Sucesso, de fazer a letra para uma música do disco Selvagem. Ai a poesia de Gil faz brotar uma história daquilo que desperta a aparição de uma sereia numa praia brasileira: “alguns a desejar seus beijos de deusa, outros a desejar seu rabo pra ceia”. Duas novidades, dois desejos e um paradoxo da desigualdade a prevenir sobre os riscos que o mundo produzia para si. A guerra como um pesadelo recorrente mostra o novo sonho que se desenvolve, e como já não cabe nele todos os que desejam, todos os que sonham. A vida presente no Brasil dos anos de 1980 na poesia Gil denunciava uma crise do que começava a deixar pra trás ideias de coletividade presentes outrora, imprimindo nos modos de ser e estar na vida, a condição individual que se impõe sobre as demais.

Até aqui, marcando alguma cronologia, essa escrita sai de 2017, vai aos anos de 1970 com Belchior e sua Velha Roupa Colorida, e traz esse “canto torto feito faca” para cortar o agora que habitamos. Depois vai aos anos de 1980 com Gil pra dispor a novidade que se reparte em furor sexual e barriga vazia acontecendo na mesma praia, duas ondas, pelo menos, batendo no mesmo instante. Impossível surfar as duas. Agora uma passagem rápida pelos anos de 1990, quando ingressei como aluno no curso de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

Em 1993, já possuía graduação em Jornalismo, pela UFC, mas essa profissão parecia não me caber e algo em mim fantasiava a escuta psicanalítica como objeto do desejo. Consegui passar pelo vestibular e iniciei os estudos. Algumas disciplinas e a vontade psicanalítica, como todo sólido na modernidade, evaporou. Entretanto, outro corpo psi se fazia, esse não era afeito, em demasia, aos desejos da hora. Buscava me entender numa história, onde muitas forças compõe os sentidos. Com Nietzsche e Foucault poderia dizer disso através das genealogias que instituíam formas e modos de vida.

E assim aprendi um pouco nessa experiência de estudante de psicologia, a não desvincular arbitrariamente essas duas condições que se colocam para qualquer experiência humana, no caso a relação entre a novidade e o presente. De outro modo: aquilo que se apresenta como uma novidade para um indivíduo qualquer, já não é novidade para quem faz essa apresentação. Ora, se assim o for, porque isso é apresentado como novidade ou mesmo, porque o apresentador da mesma, permite que seu público tenha aquilo como uma novidade, que para ele já não é?

Nesses 25 anos de Psicologia, essa conduta tem interferido em muitas das decisões que precisei ou quis tomar, como a escrita desse texto, por exemplo. É importante pensar que a Psicologia, como qualquer outro campo de saber, não deve se constituir como um fundamento que possa se confundir com um objeto de desejo, daquele que esteja num processo de formação nesse campo. Uma vontade não deve ganhar uma forma objetiva antes de seu último suspiro.

Em Psicologia, como alerta Luis Antonio Baptista (6), a escuta do indivíduo, na ausência da história que o constituí, se faz surda, pela sua deliberação em objetivar. Como se o efeito futuro se antecipasse aos acontecimentos que lhe disparariam. Complicando um pouquinho, isso faria o futuro, que efetivamente não existe como futuro, ser a causa de si mesmo.

Chamo mais um amigo do pensar essa história, o paraibano Augusto dos Anjos (7) e um soneto seu, escrito há mais de 100 anos, para dizer dessa questão, a qual ele nomeou por Insânia:

No mundo vago das idealidades
Afundei minha louca fantasia;
Cedo atraiu-me a auréola fulgidia
Da refulgência antiga das idades.

Mas ao esplendor das velhas majestades
Vacila a mente e o seu ardor esfria;
Busquei então na nebulosa fria
Das ilusões, sonhar novas idades.

Que desespero insano me apavora!
Aqui, chora um ocaso sepultado;
Ali, pompeia a luz da branca aurora

E eu tremo e hesito entre um mistério escuro
– Quero partir em busca do Passado
– Quero correr em busca do Futuro.

Nesse agora dessa escrita, muito do que em mim era estranheza e incômodo, foi ganhando uma consistência bacana. Agradeço a sala de aula por isso. Mas sei que a conversa não se encerra e que ela precisa se manter aberta com quem se dispuser, mas principalmente em mim. É assim que exerço alguma liberdade e autonomia.

A sanha da individualidade é bicho contorcionista, silencioso e que não gosta de deixar rastro. Somos muito essa individualidade em nosso agora, e isso costuma, por conveniência, acreditar que o presente é a novidade, e vice-versa. Entretanto não somos, ainda, uma totalidade que se expressa apenas no cada um no seu cada qual ou na sua individualidade. Esse modo de ser que resiste a individualidade extrema, se pulsa em mim e em você, saiba que ele só o faz, por ser uma força que não aceitou jamais a novidade como algo que fosse além de uma fugaz impressão do sensível, que não sei por que cargas d’água, passou a constituir subjetividades serializadas no contemporâneo.

Referências

  1. http://site.cfp.org.br/legislacao/codigo-de-etica/

  2. http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Disco=DI00648

  3. http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_info.php?id=377&letra

  4. GUATTARI, Felix, ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografia do desejo. Petropolis. 1996.

  5. http://www.scielo.br/pdf/ha/v16n33/15.pdf

  6. BAPTISTA, Luis Antonio. A cidade dos sábios. São Paulo: Summus, 1999.

  7. DOS ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

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