Digerir o fascismo é possível, mas não é fácil

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Sete de outubro de dezoito e o Brasil registra uma febre de 46 graus de fascismo. Quase o limite da sobrevivência, mas o paciente não agoniza. Antes, jubila-se pelo feito de na elevada temperatura ter sido capaz de fazer valer sua ideia de moralidade e civismo. Alguns hão de defender que há também uma dimensão religiosa, mas isso soa mais maquiagem pra sair melhor na fotografia 3×4. Uma leitura da vida de Jesus Cristo transformada em culto midiático busca atenuar a força brutal que se esconde numa bandeira que carrega o número 17, o signo do fascismo nacional.

Mas o que é o fascismo? Você vai encontrar o significado desse termo associado a história de um movimento autoritário nacionalista italiano, mas por certo não é essa a sua manifestação que perdurou nas relações entre as pessoas até aqui.  Assim, por fascismo tomarei a ideia de uma política que busca controlar a vida coletiva, restringindo discursividades até o limite do que deve e pode ser manifesto. Em 1984, livro de George Orwell, temos essa ideia sendo efetivada como controle social, a partir da vontade do Big Brother.  Fascismo assim é uma lógica que busca restringir ou mesmo aniquilar vontades, a partir de uma vontade tida como maior. No Brasil de 2018, essa vontade fascista orbita no movimento que tem por líder Jair Bolsonaro. O capitão reformado do Exército quase levou a eleição no primeiro turno e isso fez parecer, que a democracia vai se perder e as liberdades estão por um fio. Decepção, desencanto, desespero e raiva tomam conta dos que queriam Haddad, ou Ciro ou Boulos. O campo progressista, onde me situo, se viu derrotado. Mas essa percepção instantânea se equivoca, já que somente em vinte e oito de outubro os eleitores vão as urnas. Até lá, muita água precisa correr, por cima e por baixo das pontes da vida.

Entretanto, mesmo que o Jair Bolsonaro não seja feito presidente, e Fernando Haddad e Manuela D’ávila subam a rampa do Palácio do Planalto em 2019, não se deve crer que o fascismo foi vencido. Ele tem suas consistências macro, visíveis e palpáveis, mas também tem materialidades micro e essas muitas vezes, passam despercebidas pois são fascismos que todos nós carregamos. Cada corpo precisa vencer seu próprio fascismo para pleitear liberdades e na guerra contra a beligerância abjeta de Bolsonaro, algumas dicas podem ajudar a fazer o bom combate.

Quem as dá, não sou eu, é Michel Foucault, em comentário que fazia sobre a obra O anti-Édipo de Gilles Deleuze e Felix Guattari. Diz Foucault:

  • Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante.
  • Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal.
  • Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade.
  • Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo, não é sedentário, mas nômade.
  •  Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.
  • Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política, para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação.
  • Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
  • Não exija da ação política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
  • Não caia de amores pelo poder.(1)

Expressões estranhas, frases que parecem carregar um sentido incerto e alienado, “conceitos” difíceis de digerir? Bom, aqui se chega ao título dessa postagem. Nos acostumamos a lidar com uma dieta da decodificação imediata do que visualizamos. O instantâneo da vida fascista absorveu-nos e é preciso enfrentar a indigestão do “não-saber”, para pautar um estudo de como o fascismo nos capturou na atualidade. De como nos deixamos amarrar a histórias onde gente como os Bolsonaros protagonizam o roteiro.

Daí, na retomada de publicações dessa Oficina, uma vontade de conversa se faz cartão de visita. Cada tópico disposto por Foucault pode ser um tema para discussão que atravesse aquilo que temos nos transformado em nossos modos e formas de viver e conviver no presente.

Bora?

(1)Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993 [páginas 197 a 200]

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