Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou. (Manuel de Barros)

(Conferência II)

A verdade e as formas jurídicas

Não é sutil a diferença entre a ideia de um homem que encontra seu destino e do homem que o produz. Se a morte espreita toda e qualquer vida, o que se faz antes dela diz de como se vive, muito mais do que aquilo se acredita ser. Essa questão martela os jeitos humanos de viver, há coisa de quase 2500 anos. Pelo menos é o que aponta Michel Foucault na segunda conferência disposta no livro A verdade e as formas jurídicas.

Foucault apresenta sua leitura da peça Édipo-Rei de Sófocles (496 a 405 a.C.) e longe de se embrenhar no drama de um sujeito de mata o pai e desposa a mãe, e que sucumbe às predições dos Deuses, apresenta um encadeamento de atos, para dizer que na Grécia de Sófocles e Platão, esse tipo de leitura dramática não tinha mais lugar. O maior crime de Édipo-Rei não foi assassinar o pai e desposar a mãe. Seu maior crime foi produzir a própria inutilidade em querer ser um tirano, num tempo onde a tirania deixava de ser a forma jurídica que definia a verdade.

É assim que a ideia do homem fabricando o seu destino começa a se desenvolver na peça de Sófocles, onde a leitura de Foucault não perde oportunidade em pontuar como o poder político se entrama na produção dos saberes e vice e versa. Édipo, ao final de sua tragédia, quando muito, pode ser visto como um fiador da verdade, pois foram seus atos de costurar metades de discursos, manifestos pelo divino, pelos escravos e pela corte da qual era o Rei, que possibilitou movimentar o processo político e estabelecer a sua sentença, como aquele que um dia podia tudo, mas ao final, estava desinvestido, absolutamente, desse lugar de saber.

Uma disputa entre Menelau o Antíloco, disposta na Ilíada de Homero, mostra o que a tragédia de Édipo se fazia um momento de transição nos modos de vida na Grécia Antiga. Foucault conta que Antíloco vence Menelau numa corrida de carroça e é acusado de irregularidade. Havia testemunhas possíveis, inclusive Homero que conta o causo, mas Menelau desafia Antíloco a jurar perante os Deuses e esse, sabendo que a verdade divina que não se contraditava, assume a trapaça e a vida segue. A cena produz um homem que encontra o seu destino.

Na tragédia de Édipo há uma sofisticação que vai além do jogo de provas disposto no juramento de Antíloco. A vida de Édipo demanda a relação com “técnicas para descobrir a verdade que coloca em questão a própria soberania do soberano” (Foucault,1999. p. 31). Trata-se da Lei das Metades.

Na busca da verdade que salvaria Tebas da peste, Édipo que já havia salvo a cidade uma vez, procura Tirésias, o cego que fala pelos Deuses. Nele encontra a verdade como predição, mas o discurso de Tirésias que vai numa crescente indicando o motivo da conspurcação, não lhe basta. Quando muito será uma parte da verdade que precisa se alinhar a outra, para fazer sentido.

Sua esposa Jocasta lhe diz da predição e do que ela e Laio fizeram contra o filho. Édipo sabe que matou alguém numa encruzilhada, antes de chegar a Tebas, mas esse alguém não pode ser seu pai. Ele fora criado por outra família, noutra cidade. Novamente metades que quase se ajustam, mas há algo mais a saber.

Creonte, irmão de Jocasta, pressiona Édipo a encontrar a verdade, como se ele pudesse sozinho fazê-lo. Investe contra o Rei como quem quer seu posto, mas também como quem precisa esperar que ele dê um jeito de perder esse lugar. Há um Coro que clama por solução, o mesmo Coro que antes aclamava o saber de Édipo feito rei.

No desenrolar da peça, um escravo chega de Corinto para anunciar a morte de Políbio, pai de Édipo. Foucault acentua que Édipo, aquele que busca a verdade, enxerga na notícia um atestado de sua inocência. Seu paí morreu, mas ele não o matou. Logo o escravo diz que Políbio não era seu pai biológico, e esse testemunho não basta. O escravo diz de quem pegou o bebê recém-nascido e Édipo, como Rei, manda chamar o outro escravo, que recebeu a incumbência de matá-lo, pela boca de seus pais. O segundo escravo confirma a história. Todas as metades se ajustam e Édipo percebe que a sua ambição por saber, por ver mais que os outros, sentencia o destino que ele ajudou a montar. Nesse momento se torna a ser descartável para a cidade que era sua.

Sófocles, Platão e o combate a tirania

Michel Foucault, quando se encaminha para o fim da conferência, convida a audiência a observar os deslocamentos no jogo de poder, a medida em que as metades se ajustam. Ele aponta níveis onde se dão esses ajustamentos. O primeiro diz da profecia dos deuses e se faz no par Apolo e Tirésias. Um Deus e seu intermediário marcam uma dimensão transcendente na produção da verdade. O segundo nível é evidenciado nos diálogos entre Jocasta e Édipo, mãe e filho, mulher e marido, rei e rainha. O nível dos soberanos que poderia bastar para estabelecer o verdadeiro, mas que não conseguem afirmá-lo. O terceiro nível, onde se encontra a ralé do povo, são os dois escravos que testemunham e autenticam a verdade. O inquérito se fecha e o “que havia sido dito como profecia é redito como testemunho pelos escravos”(1999. p. 39).

O Édipo-Rei é o humano que se entrega a sua sede de ver, a sua vontade de saber, ao seu desejo de poder. Édipo-Rei nem de longe é o sujeito que vive o drama do esquecimento e da impossibilidade do gozo. Édipo é aquele que quis saber demasiadamente e exercendo o poder que possuía; produziu a sua inutilidade.

Foucault entende que as relações de poder são a questão maior da peça de Sófocles. Observa que na primeira cena o Coro clama a Édipo: “Tú tens o poder e deve curar-nos da peste” (1999, p. 42). Numa das últimas falas, o Coro sentencia os efeitos do exercício do poder por Édipo: “Tu que estavas no cume do poder” (1999, p. 43). Entre uma fala e outra, o Édipo, que se quis tirano de Tebas, vai alinhavando com suas decisões o seu destino.

Nesse sentindo, para Foucault, Sófocles e Platão convergem em mostrar que aquele que porta o saber e o poder, a figura heroica e autocrática, que produz a verdade a partir da própria experiência com a anuência divina, já não cabe no tempo de suas vidas. Se apartam na peça de Sófocles o saber e o poder político. Ou em Platão, dito por Foucault; “onde se encontra saber e ciência em sua verdade pura, não pode mais haver poder político”(1999, p. 51).

Se naquele tempo, 400 anos antes de Cristo, essa antinomia entre o saber e o poder político para estabelecer a verdade, significou um avanço civilizatório, muito tempo depois, no século XIX, na era dita moderna, ela encontrou em Friedrich Nietzsche um crítico radical: “por trás de todo saber, o que está em jogo é uma luta pelo poder” (1999, p. 51). Mas essa história não aparece nessa conferência, apesar de fundamental para pensar a vida contemporânea.

Referências bibliográficas

FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau Ed., 1999.

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