A vida tem conserto?


Caro Michel Foucault,

Escrevo do Brasil em 2016. Pode soar estranho essa procura tardia, mas preciso lhe falar do futuro, de uma história do seu futuro. Me dei conta outro dia, que desde junho de 1984, muito se deu em torno de seu trabalho nesse mundo e dessa data até a que escrevo agora, outubro de 2016, de algum modo, tudo se fez futuro, quando comparado ao dia em que você deixou esse mundo.

Em algum lugar de seus escritos e ditos, você anunciou uma vontade de que seus livros encontrassem leitores no futuro. Longe de qualquer querela psicológica ou cartomântica que essa frase possa ensejar, resolvi fazer um acerto de contas com essa vontade sua que foi se fazendo presente em minha vida de leitor e estudante do seu modo de pensar e de dispor sobre a vida; essa experiência demasiadamente humana.

A primeira vez que lhe vi diretamente  foi no livro Microfísica do poder, esforço de Roberto Machado em organizar num volume, retalhos de seu trabalho. No primeiro contato, imaginei que se tratava, pelo título estranho, de alguma ligação entre uma matemática da invisibilidade aplicada a alguma força que se traduziria como o poder. Tudo muito etéreo em minha cabeça até me deparar com o texto Nietzsche, a genealogia e a história, que se encontra nessa coletânea.

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O meu primeiro livro de Michel Foucault (1993)

De Nietzsche, eu já havia lido com uma pressa adolescente A genealogia da moral, nos anos de 1980. Agora era a vez de ver Nietzsche por seus olhos, mas não consegui terminar as 23 páginas que compõem o capítulo. Lembro que começava a cursar Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo em 1993, quando a professora Leila Machado apresentou um texto que tratava do Triedro dos saberes e foi essa aula que me levou a comprar o livro Microfísica do poder.

Entre nós, amigo Foucault, não fez sentido o Triedro dos saberes e muito menos o Nietzsche, a genealogia e a história, nas primeiras leituras. Hoje, entendo que essa dificuldade dizia muito mais do modo como a literatura entra na vida das pessoas no Brasil, que da complexidade do seus escritos. Aqui se prima por uma literalidade nos modos de produção de sentido, que causam danos quase permanentes em nossa capacidade de dobrar e desdobrar uma ideia. Como se as palavras precisassem ficar presas as coisas, para sempre. Há outras questões e adiante, nisso que estou a chamar por Oficina Foucault, espero ter a oportunidade de expor. Por enquanto, deixa assim.

Foucault, com o tempo, alguns outros encontros com você e outras pessoas interessadas no seu pensar, os sentidos foram emergindo e dando feição a história dessa amizade. E foi num desses encontros que me deparei com a ideia da caixa de ferramentas. Acho bela essa imagem, que você apresenta assim:

(…) um livro é feito para servir a usos não definidos por aquele que o escreveu. Quanto mais houver usos novos, possíveis, imprevistos, mais eu ficarei contente. Todos os meus livros seja História da loucura seja outros podem ser pequenas caixas de ferramentas. Se as pessoas querem mesmo abri-las, servirem-se de tal frase, tal ideia, tal análise como de uma chave de fenda, ou uma chave-inglesa, para produzir um curto-circuito, desqualificar, quebrar os sistemas de poder, inclusive, eventualmente, os próprios sistemas de que meus livros resultam, pois bem, tanto melhor!

Pois bem, cá estou a escrever de um futuro que se liga ao passado da sua vontade, mas que é efetivamente o presente desse acontecimento. Queria lhe comunicar em primeira mão da inauguração desse empreendimento que leva seu nome: Oficina Foucault. Ao longo desses tantos anos, desde 1993, fui dando um jeito de adquirir as ferramentas que você criou. Aqui e acolá fui usando-as para escrever artigos, dissertação e tese, mas também para apresentar trabalhos, para dar aulas e orientar estudos dos outros e meus.

Percebi também que sua caixa de ferramentas foi escapando dos usos do devir-acadêmico. Ela foi tomando a pele que sustenta o corpo que invento pra mim. Foi assim que me vi mecânico da vida, desses que se sujam quando futucam as engrenagens que extravasam os sentidos que as máquinas carregam. Máquinas possuem história, assim como as maquinações que as concebem e as utilizam. Ultimamente, entretanto, há um crônico descarte das máquinas e das maquinações, como se um excesso de juízo nas coisas e nas palavras estivesse a inviabilizar modos diferentes de vida.

Daí, aluguei esse espaço para fazer dele um lugar que se volta para tentativas de consertos que resistam a esse excesso de juízo nas experiências do viver. Um conserto pode ser mais que uma reparação. Pode ser a descoberta de um outro modo de lidar com as máquinas que travam, com as maquinações que submetem e condicionam os modos de vida em formas de viver.

Conversaremos mais sobre isso, querido Foucault. Quem sabe mais gente passe aqui com outras ferramentas, e compartilhe dessa arte de consertar a vida.  Portas abertas e mãos à obra!

Tenha meu abraço,

Kleber

3 comentários sobre “A vida tem conserto?

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