“Que esse canto torto, feito faca corte a carne de vocês”

De maneira seca, direta como um martelo que bate em um prego para que penetre numa superfície qualquer, o filósofo Belchior, na música À palo seco, declara a vontade que seu “canto torto, feito faca, corte a carne” de quem lhe ouve.

A narrativa do poema cantado diz de uma resposta que Belchior apresenta a uma pergunta formulada também por ele, nessa canção. Assim, a questão “se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava”, faz emergir um corpo posto em desespero, de aproximadamente 25 anos em 1973, que anuncia a sua condição de vivo e a sua vontade.

A vida entre sonhos, sangue e América do Sul rasga qualquer véu de representação para dizer no crú da coisa, do seu possível com seu grito. O que emerge no cantar é o que provém da vida do cantor, a história que lhe percorre e a que ele percorreu nesse quarto de século. Como se o cantante e seu canto se fizessem juntos num outro corpo e mais que detalhar o vivido, a decisão de confessar que viveu. Com isso, dá relevo a esse saber produzido pelo vivido, que lhe está encarnado. Veja aí!

Cortar na carne alheia pode sugerir uma perversão, mas penso que esse corte é antes uma subversão, uma busca por desordem ou desorientação de uma norma estabelecida. O corte como uma outra maneira de lidar com a experiência de compor e de cantar.

Para tratar um pouco disso, deixo Belchior e busco em Michel Foucault alguma reverberação para o que digo. No texto Nietzsche, a genealogia e a história, Foucault produz uma ideia de história efetiva que contraria o entendimento de que é possível determinar uma origem para as coisas da vida, uma explicação causal para as mesmas.

Nesse debate contra a origem, duas outras expressões emergem para montar a lógica do acontecimento. Com Nietzsche, Foucault diz de dois movimentos que permitem uma outra compreensão histórica; no caso a proveniência e a emergência. Arriscando uma simplificação, um acontecimento poderia ser tomado como aquilo que emerge enquanto efeito do que lhe provém. Algo marcado pela heterogeneidade das forças, que postas em relação, lhe permitiram aparecer. Para Foucault, a história genealógica “agita o que antes se percebia como imóvel, fragmenta o que se pensava unificado” (1), e inscreve nos corpos os acontecimentos da vida.

O corpo – e tudo o que se refere ao corpo: a alimentação, o clima, o solo – é o lugar da proveniência: no corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados, assim como dele nascem os desejos, os desfalecimentos e os erros; nele também se ligam e subitamente se exprimem, mas nele também se desligam, entram em luta, se apagam uns e outros e prosseguem seu insuperável conflito. (…) A genealogia, como análise da proveniência, está, portanto, na articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado pela história, e a história arruinando o corpo (1).

Pensando um pouco a emergência dos versos “de sonho, de sangue e de América do Sul” e “por força desse destino, um tando argentino me cai bem melhor que um blues”, há a ntes a apresentação da vida feita de lutas, que uma síntese de uma experiência individual. Não há transcendência em À palo seco. O destino diz do possível, dessa relação com o presente como algo que se habita, que se experimenta,  e não como um futuro que se pode antecipar.

O presente é a emergência, é o possível no jogo das forças da vida.

A emergência sempre se produz em um determinado estado de forças. A análise da emergência deve mostrar seu jogo, o modo pelo qual elas lutam umas contra as outras, ou o combate que travam diante de circunstâncias adversas, ou ainda sua tentativa – dividindo-se contra si mesmas – de escapar a degenerescência e recobrar o vigor a partir de seu próprio enfraquecimento (1).

Datas, frases e monumentos que buscam representar a coisa histórica parecem dizer quase nada da vida quando contrapostos a efetividade da genealogia disposta por Nietzsche. Demandam compreensão os ditos documentos históricos, mas forçam o entendimento para se manterem como registros da verdade.

À palo seco não é uma vontade de ensinar um caminho de vida a ser percorrido, uma trilha que seja. À palo seco é a emergência dos embates que permitiram o caminhar, quando se acentua como esse trajeto foi feito “de sonhos, de sangue e de América do Sul”. De outro modo, caminhar feito com cortes, que podem ser tomados por descontinuidades.

Diz Foucault,

A história será “efetiva” à medida que reintroduzir o descontinuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos, multiplicará nosso corpo e o oporá a ele mesmo. Ela não deixará debaixo de si nada que tivesse a estabilidade asseguradora da vida ou da natureza, não se deixará levar por nenhuma obstinação muda na direção de um fim milenar. Ela irá esvaziar aquilo sobre o que se costuma fazê-la repousar, e se obstinará contra a sua pretensa continuidade. Porque o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar (1).

Esse trecho de Nietzsche, a genealogia, a história é de uma beleza singular, enquanto expressão de um modo de enxergar a vida se fazendo. É texto para ler devagar, pensar as conexões que as palavras montam e os sentidos que conseguem produzir.

Belchior e a vontade “que esse canto torto, feito faca corte a carne de vocês”. Foucault  e a ideia de que “o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar”.  O que pode esse encontro?

Para esse mecânico, esse encontro diz que a vida pode e que ela, a vida, em canto e em pensamento corte mais, e mais, e mais!

(1) FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia, a história. (in) Ditos e escritos II: Arqueologia das ciências e histórias dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

A vida tem conserto?


Caro Michel Foucault,

Escrevo do Brasil em 2016. Pode soar estranho essa procura tardia, mas preciso lhe falar do futuro, de uma história do seu futuro. Me dei conta outro dia, que desde junho de 1984, muito se deu em torno de seu trabalho nesse mundo e dessa data até a que escrevo agora, outubro de 2016, de algum modo, tudo se fez futuro, quando comparado ao dia em que você deixou esse mundo.

Em algum lugar de seus escritos e ditos, você anunciou uma vontade de que seus livros encontrassem leitores no futuro. Longe de qualquer querela psicológica ou cartomântica que essa frase possa ensejar, resolvi fazer um acerto de contas com essa vontade sua que foi se fazendo presente em minha vida de leitor e estudante do seu modo de pensar e de dispor sobre a vida; essa experiência demasiadamente humana.

A primeira vez que lhe vi diretamente  foi no livro Microfísica do poder, esforço de Roberto Machado em organizar num volume, retalhos de seu trabalho. No primeiro contato, imaginei que se tratava, pelo título estranho, de alguma ligação entre uma matemática da invisibilidade aplicada a alguma força que se traduziria como o poder. Tudo muito etéreo em minha cabeça até me deparar com o texto Nietzsche, a genealogia e a história, que se encontra nessa coletânea.

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O meu primeiro livro de Michel Foucault (1993)

De Nietzsche, eu já havia lido com uma pressa adolescente A genealogia da moral, nos anos de 1980. Agora era a vez de ver Nietzsche por seus olhos, mas não consegui terminar as 23 páginas que compõem o capítulo. Lembro que começava a cursar Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo em 1993, quando a professora Leila Machado apresentou um texto que tratava do Triedro dos saberes e foi essa aula que me levou a comprar o livro Microfísica do poder.

Entre nós, amigo Foucault, não fez sentido o Triedro dos saberes e muito menos o Nietzsche, a genealogia e a história, nas primeiras leituras. Hoje, entendo que essa dificuldade dizia muito mais do modo como a literatura entra na vida das pessoas no Brasil, que da complexidade do seus escritos. Aqui se prima por uma literalidade nos modos de produção de sentido, que causam danos quase permanentes em nossa capacidade de dobrar e desdobrar uma ideia. Como se as palavras precisassem ficar presas as coisas, para sempre. Há outras questões e adiante, nisso que estou a chamar por Oficina Foucault, espero ter a oportunidade de expor. Por enquanto, deixa assim.

Foucault, com o tempo, alguns outros encontros com você e outras pessoas interessadas no seu pensar, os sentidos foram emergindo e dando feição a história dessa amizade. E foi num desses encontros que me deparei com a ideia da caixa de ferramentas. Acho bela essa imagem, que você apresenta assim:

(…) um livro é feito para servir a usos não definidos por aquele que o escreveu. Quanto mais houver usos novos, possíveis, imprevistos, mais eu ficarei contente. Todos os meus livros seja História da loucura seja outros podem ser pequenas caixas de ferramentas. Se as pessoas querem mesmo abri-las, servirem-se de tal frase, tal ideia, tal análise como de uma chave de fenda, ou uma chave-inglesa, para produzir um curto-circuito, desqualificar, quebrar os sistemas de poder, inclusive, eventualmente, os próprios sistemas de que meus livros resultam, pois bem, tanto melhor!

Pois bem, cá estou a escrever de um futuro que se liga ao passado da sua vontade, mas que é efetivamente o presente desse acontecimento. Queria lhe comunicar em primeira mão da inauguração desse empreendimento que leva seu nome: Oficina Foucault. Ao longo desses tantos anos, desde 1993, fui dando um jeito de adquirir as ferramentas que você criou. Aqui e acolá fui usando-as para escrever artigos, dissertação e tese, mas também para apresentar trabalhos, para dar aulas e orientar estudos dos outros e meus.

Percebi também que sua caixa de ferramentas foi escapando dos usos do devir-acadêmico. Ela foi tomando a pele que sustenta o corpo que invento pra mim. Foi assim que me vi mecânico da vida, desses que se sujam quando futucam as engrenagens que extravasam os sentidos que as máquinas carregam. Máquinas possuem história, assim como as maquinações que as concebem e as utilizam. Ultimamente, entretanto, há um crônico descarte das máquinas e das maquinações, como se um excesso de juízo nas coisas e nas palavras estivesse a inviabilizar modos diferentes de vida.

Daí, aluguei esse espaço para fazer dele um lugar que se volta para tentativas de consertos que resistam a esse excesso de juízo nas experiências do viver. Um conserto pode ser mais que uma reparação. Pode ser a descoberta de um outro modo de lidar com as máquinas que travam, com as maquinações que submetem e condicionam os modos de vida em formas de viver.

Conversaremos mais sobre isso, querido Foucault. Quem sabe mais gente passe aqui com outras ferramentas, e compartilhe dessa arte de consertar a vida.  Portas abertas e mãos à obra!

Tenha meu abraço,

Kleber